Postal de Natal e a Rua das Hortas num Natal do início da década de 70
1. Postal de Boas Festas da Foto ROTIV com vista geral da cidade de Moçâmedes numa altura em que a avenida marginal e o porto de cais já estavam prontos.
2. A Rua das Hortas com iluminação de Natal, num ano algures no início da década de 70.
PAI-NATAL
Pai-Natal
Gorducho como és,
Com esse ventre obeso,
Como podes passar nas chaminés
Sem ficar preso?!
E como podes inda, sem perigo,
Com essas botas grossas, quando avanças,
Não perturbar o sono das crianças
Que adormeceram a sonhar contigo?!
Como podes passar,
Com essas barbas longas e nevadas,
Sem medo de assustar
Crianças que se encontram acordadas?!
Eu sei!
Eu digo-te a razão,
Embora se me parta o coração!
É que tu, risonho Pai-Natal,
Só entras em palácios de cristal,
Por chaminés de mármore e jade
Onde o rotundo ventre
Passe, deslize e entre,
Libérrimo, em perfeito à vontade!
Como podem as botas vigorosas
Rangerem um momento,
Se alcatifas caras, preciosas,
Se espreguiçam por todo o pavimento!
Nem podes assustar
Crianças que se encontram acordadas,
Porque tens o cuidado de tirar
Essas revoltas barbas já nevadas!
E, assim, é,
Risonho Pai-Natal de riso e gestos ledos,
Vais aos palácios ricos, por teu pé,
Vazar o grande saco de brinquedos!
Antes fosses, risonho Pai-Natal,
Na noite friorenta,
De portal em portal,
De tormenta em tormenta!
E descesses aos lares pobrezinhos
Onde há doridas mães talvez chorando,
Ao seio acalentando
Os pálidos filhinhos!
Ou fosses campo em fora, em longas caminhadas,
A descobrir crianças sem abrigo,
Adormecidas, nuas, regeladas,
E ainda a sonhar contigo!
Mas não são esses, não, os teus caminhos,
Tu que vestes veludos e arminhos!
Quando Jesus nasceu,
No rigoroso frio do Inverno,
Nu e natural,
Sem outra benção que o olhar materno,
Sem mais calor que um bafo irracional.
Onde é que estavas tu, oh! Pai-Natal?!
Por onde andavas tu, oh! Pai-Natal?!
Sei bem onde é que estavas!
Sei bem por onde andavas!
Andavas, entre risos e folguedos,
Já com as barbas brancas e os bigodes,
A despejar saco de brinquedos,
-Na chaminé de Herodes!
Angelino da Silva Jardim
Moçâmedes. Natal de 1964
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Outra tradição bem portuguesa nesta quadra festiva, era a «missa do galo», que começava à meia noite em ponto e atraia muitos moçamedenses, homens e mulheres, a caminho da Igreja de Santo Adrião, ainda que a maior presença fosse do sexo feminino
E a festa repetia-se na passagem de ano e no 1º dia do ANO NOVO. Para a maioria das familias a passagem de ano era motivo de reunião familiar idêntica à do Natal, para outras, era festejada em animados e elegantes Reveillons no Clube Nautico e no Atlético Clube de Moçâmedes, que começavam por volta das 22/23 horas, e se prolongavam até ao raiar do dia, altura em que muitos jovens aproveitavam para dar o primeiro mergulho do ano na Praia das Miragens, a nossa bela praia que tinha a vantagem de estar mesmo ali à mão, no centro da cidade. Por esta altura, apesar de se estar no início do Verão em Angola as águas eram ainda estavam frias, para o que concorria a chamada corrente fria de Benguela. No primeiro dia do ano, à tarde, ocorriam animadíssimas matinées dançantes nos mesmos salões do Atlético e do Casino, mas estas acabavam impreterívelmente às 20 horas. Naquele tempo havia respeito pela hora das refeições que deveriam ocorrer estando presentes todos os membros de uma família. Do mesmo modo, ninguém se deitava depois da meia noite.
Em tempos mais atrás e até ao finais da década de 40, era o Ginásio Clube da Torre, o Clube pioneiro da cidade (fundado em 1919), que organizava estes eventos (Revelillons, bailes da Pinhata, etc.) no seu mediano salão que passou a ser pequeno para tanta gente que para alí convergia, ida de todos os lados da cidade. Havia também o salão do Aero Clube de Moçâmedes, situado na esquina entre a Praça de Taxis ou Praça Gomes Leal e a Avenida da Praia do Bonfim, que durante décadas foi palco de animados bailes e matinées dançantes, como os que decorreram por ocasião do Centenário da Cidade, a 4 de Agosto de 1949. Mais tarde no local onde ficava o Aero Clube foi construido um prédio de grande porte, propriedade de José Alves.
Uma curiosidade. Nas passagens de ano em Moçâmedes era hábito um grupo de jovens da Torre do Tombo, pela madrugada, pegarem em piscéis e tinta e sairem para a rua com o objectivo de escreverem algumas piadas nas paredes das casas, enquanto os moradores dormiam. Geralmente andavam atentos a escândalos, casos passionais, vigarices, não cumprimentos nos pagamentos de dívidas etc. etc. Pela manhã quando as pessoas acordavam, começava o burburinho, o «diz que diz-se», o «diz que fez-se»... Eram escritos deste tipo: «Quantas ampolas tem a caixa?», ou então nomes sugestivos de filmes: «Ali Babá e os 40 ladrões», «A revolta na Baunty», «E tudo o vento levou«, «A Bela e o monstro», «O último moicano», que encerravam sempre um dignificado malicioso, uma mensagem crítica, que alimentava, uma cidade como Moçâmedes, onde poucas novidades aconteciam, o maquiavélico gostinho de uma certa má língua.
Ficam mais estas recordações de acontecimentos e vivências ocorridos na cidade de Moçâmedes, num tempo que já lá foi e não volta mais.



































